quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Físico usa probabilidades para mostrar como o acaso influencia o mundo

Leonard Mlodinow cita escritores famosos, que tiveram até 26 recusas antes de brilhar, para defender que persistência é grande fator de sucesso

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro

O físico norte-americano Leonard Mlodinow, 56 anos, é um produto do acaso, ou da sorte. Ele só nasceu porque seu pai foi um improvável sobrevivente de campo de concentração nazista na 2ª Guerra Mundial e perdeu a mulher e os dois filhos durante o conflito. O velho Mlodinow esteve a um instante de ser assassinado após, faminto, roubar um pão na padaria do campo de concentração – por algum motivo, salvou-se e foi designado para a padaria. Acabada a guerra, emigrou para os Estados Unidos, onde se uniu a uma moça judia, refugiada.

"Se não fosse pela guerra, meu pai nunca teria emigrado para Nova York, nunca teria conhecido minha mãe, também refugiada, e nunca teria gerado a mim e aos meus dois irmãos", escreve.

É justamente o acaso, ou a aleatoriedade, o tema de “O Andar do Bêbado” (Zahar, R$ 42 nas livrarias e R$ 34,50 na Bienal do Livro), livro escrito por Leonard Mlodinow, que usa as probabilidades para explicar como muitos dos acontecimentos que mudam a nossa vida acontecem sem uma lógica clara. O físico está no Rio para a Bienal do Livro, para participar de um café literário nesta quinta-feira (8).

De acordo com Mlodinow – autor de cinco livros, mais dois no prelo –, “o acaso afeta tudo que você faz e muda muitos e importantes momentos de definição em sua vida”.

O físico escritor cita casos como o da escritora J.K.Rowling, que teve o primeiro livro Harry Potter recusado por nove editoras, e John Grisham, de “A Firma”, cujos manuscritos foram rejeitados 26 vezes, para afirmar que frequentemente o aleatório faz com que a arma que nos resta seja a persistência. “É por isso que as pessoas bem-sucedidas em todas as áreas quase sempre fazem parte de um certo conjunto – o conjunto das pessoas que não desistem”, diz, no livro.

Citando Thomas Watson, ele diz que “se quiser ser bem-sucedido, duplique a sua taxa de fracassos”. É matemática, ou probabilidade: quanto maior o número de tentativas, maiores as chances de se conseguir algo.

Usando as leis de probabilidades, mostra como estava errado um exame de sangue que o apontou como HIV positivo em 1989, embora não fizesse parte de nenhum “grupo de risco”. Tomando por base o fato de que ele estava fora de qualquer grupo de risco e de que apenas 1 a cada 10.000 homens brancos heterossexuais não-usuários de drogas tinha HIV, chegou à conclusão de que havia apenas 1 chance em 1000 de que estivesse contaminado, e não o contrário.


A partir das probabilidades como ferramenta principal, Mlodinow diz que a confiança que temos em testes médicos – ou de antidoping, para atletas, por exemplo – deve ser na medida de sua imprecisão, ou margem de erro. Segundo ele, as taxas de falha desses exames muitas vezes podem variar de 1% a até 15%, dependendo do caso.

E afirma que a chance de se ganhar na loteria nos EUA é a mesma de se morrer em um acidente de carro a caminho da compra do bilhete.

Foi assim, por vezes se assombrando com a própria experiência e por outras se divertindo, costurando a história de teorias matemáticas com exemplos práticos, que o físico escreveu o bem-humorado “O Andar do Bêbado” – síntese da aleatoriedade, o ébrio parece sempre estar a um ponto de cair, mas o próximo passo é imprevisível.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista do iG com Leonard Mlodinow.

iG - Com tanto acaso no mundo, a sorte existe?
Leonard Mlodinow - Claro, a sorte existe. Se acontece em seu favor, você pode considerar sorte. Se eu lhe oferecer US$ 100 se uma moeda der ‘cara’, e der, isso pode ser considerado sorte; se der ‘coroa’, é azar.

iG - De acordo com um conceito que o sr. cita, a probabilidade de um evento acontecer ao mesmo tempo de outro é sempre menor do que a probabilidade de um evento acontecer independentemente. Então, se uma pessoa for mentir ao chefe por estar atrasado para o trabalho, ele será mais convincente se der só uma desculpa, em vez de dizer que estava trânsito, o pneu furou e a mulher quebrou a perna...?
Leonard Mlodinow - É melhor dar só uma desculpa. O chefe pode pensar: essas são todas coisas raras e todas elas aconteceram com você hoje? ‘Ok, trânsito é comum, pneu furado acontece em 1/100 casos, e a mulher quebrou a perna...’ Junta tudo. Soa muito menos provável. Quando falamos algo muito específico, soa mais provável, mas na verdade é muito menos provável de acontecer. Mentiras vagas são melhores.

iG - Qual a chance de uma superstição dar certo?
Leonard Mlodinow - Superstições são baseadas em coincidências ou no que você quer acreditar. As pessoas gostam de achar que tem controle. Se um jogador de futebol põe as meias ao contrário e faz dois gols ele pode achar que foi por isso. Quando se tem uma teoria, há uma tendência de acreditar no que a confirma e desacreditar o que a refuta.

iG - É possível que o acaso esteja apenas seguindo uma certa “lei” do universo que simplesmente ainda desconhecemos?
Leonard Mlodinow - Claro. Primeiro, no nosso dia-a-dia não há acaso real. Está tudo baseado no nosso desconhecimento. Se uma pessoa for atravessar a rua e for atropelada, se ela soubesse que viesse naquela hora um motorista bêbado, poderia evitar. Mas não se sabe essas coisas, então vira o acaso. Se os fundamentos da física estão corretos, há uma certa aleatoriedade na física quântica que não se poderia nunca prever, mas isso não é a vida cotidiana, que segue as leis de Newton.

iG - O sr. diz que nunca se deveria julgar as pessoas pelos resultados, mas é assim que estamos acostumados a fazer.
Leonard Mlodinow - Essa é a maneira preguiçosa de se avaliar alguém, é a maneira mais fácil. Um jogador de futebol com sorte pode ter um ano maravilhoso e depois nunca mais repeti-lo. As estatísticas daquele ano o levariam a ser contratado para um grande time e a receber milhões. É assim também no ramo dos executivos. Mas convém julgar as pessoas mais pelos seus talentos do que por seus resultados.

iG - No livro, o sr. cita Thomas Watson, dizendo que “se quiser ser bem sucedido, duplique a sua taxa de fracassos”. Essa é a receita do sucesso, não desistir nunca?
Leonard Mlodinow - Não digo que seja a receita do sucesso nem que deva regular a vida de ninguém. Mas é muito importante e reconfortante, porque todos nós fracassamos. O negócio é continuar tentando, como o coelhinho da propaganda da Duracell.

iG - A partir de exemplos que o sr. citou no livro, testes médicos com resultados equivocados são mais comuns do que imaginamos. Isso significa que não devemos confiar neles?
Leonard Mlodinow - Sim, devemos confiar neles, mas da mesma maneira que confiamos em uma pesquisa de opinião, dentro de suas margens de erro.

iG - Quando o sr. recebeu o teste com HIV positivo começou a fazer as probabilidades de estar errado? O sr. se deu conta do erro do teste logo?
Leonard Mlodinow - Só me dei conta semanas depois. Fiz um monte de testes e depois disseram que eu estava bem. Por algumas semanas foi horrível. Eu nem pensei nisso. Só depois me dei conta disso e fiz os cálculos. Entre homens brancos, heterossexuais e não-usuários de drogas injetáveis, as chances de contaminação eram de 1 em 10.000, e ocorriam 10 falsos positivos em 10.000 testes. Então, na ocasião, a chance de eu não estar contaminado era de 10/11.

iG - Para o uso prático, o que é mais útil aprender: probabilidades ou estatística?
Leonard Mlodinow - Ambos.

iG - O sr. estava no World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001 e sobreviveu. O que estava fazendo lá?
Leonard Mlodinow - Tinha levado meu filho ao jardim de infância, estava do lado de fora. Eu morava a um bloco dali. Estava ali todo dia, então minhas chances de estar ali eram maiores do que a da maioria. Tinha muito pouca gente nos prédios àquela hora. Se o ataque fosse mais tarde, teria dez vezes mais gente. A maioria das pessoas não chegam para trabalhar às 8h30.

iG - O sr. critica rankings feitos por experts em vinhos e comida. Eles são imprecisos em suas análises?
Leonard Mlodinow - É como todo o resto, olhe para a margem de erro deles. Um desses experts admitiu para mim: ‘É, a margem é de três ou quatro pontos, em 100. Então, quando se compra um vinho cuja nota é 91, poderia ser 88 ou 94. Se for 94, você gastará mais US$ 20 do que se for 88. Um dia é 88, outro é 91, outro é 94. Um 96 é provavelmente melhor que um 86. Eu tento ignorar essas classificações, porque mesmo que você saiba que não há diferença é difícil ignorar. É a mesma coisa com o truque de preços US$ 19,99. São US$ 20. Mas US$ 19,99 soa muito mais barato que US$ 20. Eu repito para mim mesmo: US$ 20. É difícil não se impressionar, mas deve-se tentar.

iG - Quais são as chances de que Deus exista, em sua opinião?
Leonard Mlodinow - Não tenho nenhuma ideia. Eu não tenho nenhuma razão para acreditar que exista. Não quer dizer que não é verdade. Mas também não digo que tenha alguma razão para dizer que não exista. Como muitas coisas, não tenho razão para dizer que não é verdade. Eu poderia acreditar que vou ganhar na loteria, e isso me faria muito feliz, como meu pai, que comprava um bilhete todo dia. Ele nunca venceu, mas isso o fez feliz.

iG - O sr. nunca lhe disse quais eram as verdadeiras chances que ele tinha?
Leonard Mlodinow - Não, eu lhe comprava bilhetes! É um jeito mais barato de se ter esperança que a religião. E ninguém morre disso... Na verdade, morre, sim... Mostro no livro que tantas pessoas morrem no caminho para comprar bilhete, em acidentes de carro, quanto ganham na loteria. Eu calculei isso. Para cada vencedor, um morre em acidente indo comprar um bilhete, com base em dados do Departamento Nacional de Trânsito dos EUA.

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