quinta-feira, 18 de março de 2010

O Segredo


Ficha técnica

Gênero: Ficção
Duração: 113 min.
Ano de lançamento: 1997
Direção: James Foley
Roteiro: William Goldman e Chris Reese
Música: Carter Burwell
Produção: Davis Entertainment

Elenco

Gene Hackman
Chris O”Donnell
Faye Dunaway
Robert Prosky


Resenha

Há muitos elementos coincidentes em O Segredo/The Chamber e Fantasmas do Passado/Ghosts of Mississippi, e o fato de que os dois são excelentes filmes é apenas o primeiro deles. Os dois são obras de bons cineastas nascidos em Nova York, ambos autores de filmes de idéias humanistas, progressistas, liberais (no sentido político e comportamental do termo, não no econômico).

O primeiro é dirigido por James Foley (de Um Dia para Relembrar/Two Bits e O Sucesso a Qualquer Preço). O segundo é de Rob Reiner (de Questão de Honra e Harry e Sally – Feitos um para o Outro). Os dois filmes são produções do mesmo ano, 1996, lançados em vídeo no Brasil no finalzinho de 1997. Os dois se passam no mesmo lugar, Jackson, a capital do Estado de Mississippi, o Sul Profundo dos Estados Unidos, que foi à guerra contra o Norte para manter a escravidão dos negros, foi derrotado mas ainda hoje se orgulha mais da bandeira dos Confederados do que da americana.

Aliás, nos dois filmes a bandeira dos Confederados aparece diversas e diversas vezes. Os dois filmes mostram fatos passados nos anos 60 e vêm até agora, os 90 e muitos. O tema dos dois é exatamente o mesmo: o racismo, essa praga arraigada no Sul Profundo possivelmente como em nenhum outro lugar do mundo. Nos dois filmes há a presença nojenta da Ku Klux Klan. Em cada um deles, um supremacista branco mata por racismo.

Fantasmas do Passado conta uma história real. Tão real que alguns personagens da história interpretam a si mesmos. O filme insiste o tempo todo em lembrar o espectador de que aqueles fatos todos aconteceram. O Segredo, ao contrário, se baseia em romance de um dos mais bem-sucedidos autores de best-seller do século, John Grisham.

Tanto a história real quanto a história saída da imaginação de um escritor de sucesso são apavorantes, chocantes, emocionantes. E são duas histórias que viraram excelentes roteiros, e belíssimos filmes.

Em O Segredo, o assassinato vem antes mesmo da apresentação. Estamos no início dos anos 60, e um advogado judeu que defende negros leva os dois filhos para o escritório de manhãzinha; às 8 em ponto, explode uma bomba. Corta, e começa e apresentação. Ao longo dela – estamos agora nos anos 90 – um jovem de cerca de 25 anos (Chris O’Donnell) vê no vídeo cenas de jornais da TV da época do atentado; as duas crianças morreram, o pai sobreviveu (mas se mataria pouco depois), o autor do crime, um supremacista branco (o grande Gene Hackman, excelente), foi preso. Com menos de 10 minutos de filme, o espectador já sabe que o jovem é advogado, e é neto do assassino; quer fazer tantas apelações quanto forem necessárias para impedir que a pena de morte dada ao avô seja executada.

Assim como fez o diretor Reiner, em O Segredo James Foley mostra e demonstra a força brutal do racismo, a profundidade com que ele está enraizado naquela sociedade, e como ele fez e faz até hoje vítimas, como ele mexe nas relações familiares, na criação dos filhos, no convívio dos meninos, de hoje e de 30 anos atrás, com a violência do preconceito.

Seguramente porque se baseia em fatos criados pela imaginação, e portanto é mais solto, mais livre, O Segredo consegue ir mais fundo do que Fantasmas do Passado no sentido de mostrar as relações escabrosas, assombrosas, entre o poder econômico e político e os crimes que se praticaram nos Estados Unidos, em especial no Sul Profundo, contra negros. O filme de Reiner mostra, sim, e bem, como ainda é difícil, até hoje, revolver o lamaçal do passado não tão distante assim de crimes racistas. Mas o de Foley mostra de maneira mais escancarada ainda a podridão do poder, da política. E ainda acrescenta outro elemento: faz um panfleto contra a pena de morte – mesmo quando o réu é um assassino confesso, de passado monstruoso. Mesmo assim, mostra o filme, quando o Estado mata, torna-se absolutamente igual ao criminoso.

Racistas, reacionários de carteirinha, direitistas raivosos, esses devem passar longe destes dois belos filmes.


Com informações do 50 anos de filmes

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